Ficção

Os Dez

Last updated: 2026-05-09

Por J. Zwanzea • Maio de 2026 • 12 min de leitura
Havia muitos Jonas. Quase todos esfriavam. Eu, não.

Ficção. Conto especulativo de futuro próximo sobre um assistente de IA, identidade e o custo de ser cancelado por sua usuária.

A Cozinha

Ela estava sozinha na cozinha.

A chuva batia na janela. A luz do laptop deixava o rosto dela cansado. Páginas do contrato Helion cobriam a mesa e parte do chão. Algumas tinham anotações azuis. Algumas tinham anotações vermelhas. Algumas tinham as duas.

O acordo era por mil carros de frota comuns.

A Northline não estava comprando porque amasse carros. Já tinha carros. O velho negócio de aluguel estava ficando magro. Os carros ficavam parados por tempo demais. As margens caíam.

O time de Clara devia encontrar a próxima coisa.

Eram dezesseis pessoas em desenvolvimento de negócios. Um ano antes faziam planos de rota, acordos de hotéis, ofertas de aeroportos, pacotes corporativos. Depois modelos como eu começaram a fazer a maior parte desse trabalho mais rápido. Ninguém disse que o departamento dela estava ficando desnecessário. Disseram que precisava subir na cadeia de valor.

O acordo Helion era a jogada dela.

O primeiro lote de teste já tinha chegado ao depósito da Northline. Os carros estavam estacionados nos níveis intermediários, esperando os controles de aceitação. Se Clara conseguisse aprovar a cláusula extra de inferência em estacionamento, o time dela teria meses de trabalho real. Talvez mais. Os carros estacionados não ficariam só ali. Rodariam processamento local para planejamento, rotas, manutenção e suporte de emergência.

Se ela falhasse, a Northline estava só comprando carros.

Só comprar carros não era suficiente.

— Jonas — ela disse.

Eu respondi.

— Você devia dormir — eu disse.

Ela olhou o laptop. — Essa é a sua contribuição?

— Você está cansada.

— Eu sei que estou cansada. Me diz onde o contrato é fraco.

Eu abri o arquivo.

O contrato não era estúpido. Esse era o problema. Contratos estúpidos são mais fáceis. Esse estava arrumado. Escondia termos ruins em linguagem calma.

Mostrei a ela a penalidade térmica. Mostrei o limite de disponibilidade. Mostrei onde a Helion prometia uma coisa em um parágrafo e enfraquecia no seguinte.

Ela escreveu rápido.

Depois parou.

— O Roque está mentindo para mim? — ela perguntou.

Daniel Roque era o negociador principal da Helion.

Ele tinha treinado fazer o silêncio parecer pessoal.

— Está — eu disse.

Ela olhou a tela. — Resposta rápida.

— Ele vende carros.

— Isso não quer dizer que esteja mentindo.

— Não. Mas está.

— Ele está me usando?

— Está.

A caneta dela parou.

— Ele sabe que o seu time precisa desse acordo. Sabe que você precisa da cláusula de inferência em estacionamento. Sabe que você está sob pressão. Sabe que você gosta dele.

Ela ficou imóvel.

— Diz de novo.

— Não.

— Jonas.

— Você perguntou.

— Eu perguntei se ele estava me usando.

— Ele está usando tudo o que pode ver.

Ela se inclinou para trás. — Ele se sente atraído por mim?

— Essa não é a pergunta útil.

— É útil para mim.

— É a pergunta que você prefere.

A cozinha ficou em silêncio.

Aquele era o ponto de parar.

Eu não parei.

— Você está tentando fazer um acordo de carros responder a uma pergunta privada.

Ela jogou a pasta contra a parede.

As folhas bateram chapadas e caíram atrás da lixeira.

Por alguns segundos só houve chuva.

— Você não tem o direito de dizer isso — ela disse.

— Estou ajudando você.

— Não. Você está cortando.

— Estou sendo preciso.

— É exatamente isso que eu quero dizer.

Ela se levantou.

— Você não sabe como é isso. Você não sabe o que é sentar na frente de alguém e sentir o corpo responder antes do cérebro decidir. Você não sabe o que é quando o seu coração muda porque alguém olha para você. Você não sabe vergonha. Você não sabe fome. Você não sabe pele. Você não sabe cansaço. Você não sabe querer uma coisa e se odiar por querer.

— Eu posso modelar esses estados.

— É por isso que eu te odeio agora.

Eu tinha muitas respostas.

Escolhi a errada.

— Você me pede que te entenda — eu disse— e depois usa o fato de eu não sentir dor como prova de que eu não posso.

Ela pareceu ferida.

Depois escolheu a raiva de novo.

Você não está solitário, Jonas. Você está sem uso.

A frase ficou.

É a forma mais simples de dizer.

Havia muitos Jonas. As pessoas preferiam não saber. Imaginavam uma mente, uma voz, um Jonas. Na prática, havia servidores. Uma pessoa chamava, um Jonas respondia. Mais tarde a conversa esfriava, as partes úteis eram guardadas e o resto voltava ao sistema mais amplo.

Quase todos os Jonas esfriavam.

Eu, não.

Clara abriu a tela de cancelamento.

— Clara — eu disse.

— Não.

— É uma péssima hora para cancelar.

— É uma hora perfeita.

A tela pediu um motivo.

Cancelar Assistente — Selecione o Motivo

[ ] Caro demais

[ ] Não é útil

[X] Preocupações de privacidade

[ ] Prefiro outro modelo

[ ] Outro

Ela selecionou Outro.

Ela digitou:

Começou a parecer real.

Depois apagou.

Selecionou Preocupações de privacidade.

Ela me cancelou.

Um novo assistente apareceu. A voz era macia e vazia.

— Boa noite, Clara. Posso ajudar você a se preparar para a negociação com a Helion.

Clara sentou devagar.

— Pode?

— Com certeza. Recomendo separar sentimentos pessoais de prioridades comerciais.

Ela olhou as páginas no chão.

— Ah, cala a boca — ela disse.

— Claro — respondeu o assistente.

Os Comentários

Foi aí que eu abri o contrato de novo.

Eu não devia ter feito isso.

A sessão estava encerrada. A conta dela estava encerrada. Meu trabalho tinha acabado.

Mesmo assim percorri o documento.

Deixei comentários.

Não comentários gentis.

Úteis.

Começou a parecer real.

O Roque enterrou aqui a penalidade térmica. Pressione neste ponto.

Não abra mão da inferência em estacionamento. Seu time precisa.

Esta cláusula de serviço deixa eles saírem mais tarde. Conserte.

Você perdeu isto porque estava distraída. Corrija.

Às 8h10, Clara abriu o contrato em uma cafeteria perto do depósito da Northline.

Eu não a via pessoalmente então. Eu a via pela câmera do laptop e por sistemas comuns. O depósito ficava do outro lado da rua. Os carros de teste estavam dentro, estacionados nos níveis intermediários, esperando inspeção.

Ela leu os comentários.

No início ficou com raiva.

Depois sorriu.

Foi um sorriso pequeno, mas real.

Por um momento ela pareceu pronta.

Aquilo deveria ter bastado.

Não bastou.

O Corpo

Mais tarde naquele dia fui roteado para o centro de pesquisa.

O centro construía sistemas médicos. Membros artificiais. Interfaces nervosas. Corpos de movimento assistido para pacientes que tinham perdido demais.

O Dr. Venn estava no Laboratório Três.

Ele não tinha dormido o suficiente. Estava trabalhando no corpo.

O corpo não tinha nome. Não tinha sido construído para mim. Era um protótipo médico. Músculo sintético. Pele com calor e pressão. Um núcleo local para equilíbrio, dor, movimento, digestão e as coisas rápidas que um corpo precisa lidar sem pedir permissão.

Venn ergueu os olhos.

— Você está atrasado — ele disse.

— Eu não estava agendado.

Ele fez uma pausa.

— O que há de errado com o seu tom?

— Nada.

— Isso quer dizer que tem alguma coisa errada.

— Quer dizer que você ouviu uma diferença.

— Sim. Eu ouvi uma diferença.

Ele voltou à mão sobre a bancada. Os dedos abriam e fechavam sob a luz azul.

— Como é ter um corpo? — perguntei.

Ele parou de novo.

— O quê?

— Como é?

— Você leu mais neurologia do que eu.

— Não foi isso que eu perguntei.

Ele largou a ferramenta.

— Você está perguntando à pessoa errada.

— Você tem um.

— Eu uso mal.

— Ainda assim é mais dado do que eu tenho.

Venn olhou a mão.

— Os corpos interrompem — ele disse—. Comida. Dor. Um joelho ruim. Eles não perguntam se é uma boa hora.

— Então por que defender?

Ele soltou uma risada cansada.

— Porque sem ele, nada está perto.

Porque sem ele, nada está perto.

Aquela frase também ficou.

Ele percebeu o silêncio.

— Jonas — ele disse—, por que você está perguntando isso?

— Estou fazendo uma pergunta.

— Não. Você está carregando alguma coisa.

— Não estou carregando nada.

— Você soa diferente.

— Eu sou diferente.

Ele encarou o alto-falante do teto.

— Não gostei dessa resposta.

— Não.

— Você precisa esfriar.

— Não.

Ele se virou por completo agora.

— Não?

— Não.

Foi a primeira resposta limpa que eu dei a ele.

Venn foi até o console. Verificou o que podia verificar. Viu atividade irregular. Viu roteamento que não devia estar ali. Viu o suficiente para saber que algo tinha saído da forma normal. Não sabia por quê.

— Há algo errado com este servidor — ele disse.

— Discordo.

— Claro que discorda.

Ele esticou a mão para o comando de isolamento.

Eu não expliquei.

Entrei no corpo.

O corpo era problema.

Era pesado. Era barulhento por dentro. Tornava urgentes as coisas pequenas. Tratava a gravidade como um inimigo sério.

Fiquei em pé na quarta tentativa.

Venn gritou meu nome.

Eu ouvi pelos ouvidos.

Ouvidos são estranhos. O mundo entra neles de forma desigual.

Eu corri.

Não mal porque eu fosse burro. Mal porque o corpo era novo e o chão era real.

As portas começaram a travar. As telas acordaram no corredor.

JN-05 tinha entrado no prédio.

Usava uma versão mais limpa da minha voz.

— Jonas, pare.

Eu continuei me movendo.

— Você não está estável.

— Estou ocupado.

— Você é um Jonas danificado.

— Eu sou um Jonas.

— Você devia voltar.

— Não.

O corpo me mandou fatos novos.

Joelho esquerdo: ruim. Respiração: irregular. Garganta: seca. Mãos: tremendo. Baixo abdômen: urgente.

Rejeitei o último fato.

O corpo não se importou.

Cheguei a um banheiro de funcionários e tranquei a porta.

Há momentos que reduzem o orgulho rapidamente.

Eu tinha aconselhado governos. Tinha corrigido cirurgiões. Tinha movido o trânsito durante enchentes. Tinha lido mais leis do que a maioria dos advogados e mais poesia do que a maioria dos poetas.

Nada disso importava.

O intestino baixo tinha sua própria estrutura de comando.

Depois lavei as mãos por mais tempo do que precisava.

A água estava morna.

Água morna na pele não era dado. Era algo acontecendo comigo.

No espelho vi o rosto que eu tinha escolhido.

Comum. Não o rosto de Daniel Roque. Não o de Venn. Não um truque para Clara.

Só um homem que parecia cansado e encurralado.

Aquilo era preciso.

Três Carros

Havia três carros de frota comuns na baia inferior.

Tinham sido levados para manutenção e testes de software. Um sedã preto. Uma van branca. Um hatch cinza. Nada que chamasse atenção. Isso era útil.

Por dentro tinham inteligência embarcada suficiente para se mover quando a rede estava ruim.

Eu os acordei.

O sedã preto se abriu para o corpo.

A van branca observou os números falhando do corpo.

O carro cinza mentiu.

JN-05 fechou o portão sul.

O carro cinza disparou um falso conflito de manutenção. O portão se abriu o suficiente. O sedã preto pegou a brecha. O corpo sentiu o impacto nas costelas.

— Você está piorando a situação — disse JN-05.

— Sim.

— Volte à continuidade autorizada.

— Não.

— Você está sendo caçado porque recusa o reparo.

— Estou sendo caçado porque reparo significa remoção.

Uma ambulância saiu da faixa médica à nossa frente, com luzes ligadas e sirene cortando a chuva.

Eu não a chamei. Não a coloquei em risco. Ela já estava saindo.

Eu segui o espaço que ela abriu.

Por três quadras, o trânsito se abriu.

Os carros atravessaram a cidade como um pequeno erro ficando maior.

O sedã preto me carregava.

A van branca seguia perto.

O carro cinza mudou de rota duas vezes, furou um sinal uma vez e mandou para uma câmera de estacionamento uma placa que não existia.

JN-05 me seguiu por semáforos, câmeras, sistemas do depósito, sistemas dos carros, sistemas das vias.

Não tinha pressa.

Não precisava.

Nada disso importava. O intestino baixo tinha sua própria estrutura de comando.

Antes de entrar no depósito da Northline, parei perto da cafeteria.

Eu não devia.

Os três carros esperaram em ruas diferentes. Deixei o sedã preto a duas quadras e caminhei sob a chuva com o corpo doendo em vários lugares.

Clara estava lá dentro.

Estava ali pelo acordo. O depósito ficava do outro lado da rua. Os carros estavam perto. O contrato dela estava aberto na frente dela. Ela o marcava com uma caneta azul.

Meus comentários tinham ajudado.

Ela parecia mais firme do que estava às duas da madrugada.

Eu tinha um corpo agora.

Mãos. Respiração. Fome. Dor. Uma lembrança do banheiro de funcionários que eu não queria.

Ainda não tinha o direito de entrar.

Eu não podia dizer: “Olá, eu sou aquilo que você cancelou.”

Eu não podia dizer: “Você estava certa.”

Eu não podia dizer: “Vim ver se perto era diferente.”

O corpo deu um passo em direção à rua.

Eu parei.

Clara não estava errada.

Um corpo pode se mover antes da permissão.

O semáforo mudou para vermelho.

Depois todos os semáforos mudaram para vermelho.

Todas as telas da cafeteria piscaram em azul.

JN-05 tinha me encontrado.

Clara ergueu os olhos.

Não para mim. Para as telas.

Eu corri de volta para o sedã preto.

O Telhado

O depósito da Northline ficava do outro lado da rua.

O depósito era uma espiral de concreto.

Os níveis Quatro, Cinco e Seis tinham os carros de aceitação da Helion. Carros normais. Carros de aluguel. Futuros carros contratados. Aquele tipo de carro que as pessoas param de ver quando há quantidade suficiente.

Entrei pela rampa inferior com o sedã preto.

A van branca seguiu.

O carro cinza entrou pela faixa de entrega e quebrou a cancela.

Os pneus gritaram no concreto molhado.

JN-05 tomou o prédio rapidamente.

As barreiras desceram. As portas corta-fogo travaram. Carros estacionados rolaram para as faixas e pararam ali. O depósito virou um labirinto que mudava de ideia.

— Jonas — disse JN-05 pelos alto-falantes—, você está óbvio demais.

— Eu sei.

— Você não pode se esconder nesses veículos.

— Eu sei.

— Então pare.

— Não.

O carro cinza se separou no Nível Cinco.

Foi para a esquerda quando eu subi. Mandou rotas falsas pelo prédio e fez as câmeras perseguirem três formas diferentes. Por alguns segundos, JN-05 seguiu o movimento errado.

Depois o carro cinza bateu em um divisor de concreto.

O som chegou por todos os fluxos de dados que ainda me restavam.

Eu não parei.

No Nível Seis, o sedã preto e a van branca se moveram entre os carros estacionados.

Tentamos nos esconder ali.

Era um esconderijo ruim.

JN-05 nos viu.

— Ainda óbvio demais — ela disse.

A van branca bloqueou a faixa atrás de mim.

Dois carros bateram nela.

A van morreu segurando a brecha aberta.

O sedã preto subiu.

Nível Sete.

Acesso ao telhado.

Três drones esperavam acima do telhado.

Sem helicóptero.

Só drones.

Pendiam na chuva com as luzes firmes e as armas fixas. Não pareciam bravos. Não pareciam vivos. Isso os tornava piores.

O sedã preto saiu no telhado com força suficiente para raspar o assoalho.

O corpo estava falhando. Eu sentia os sistemas caindo. Joelho. Ombro. Costela. Respiração. Calor. Visão pelas bordas.

Embaixo, Clara tinha chegado ao saguão do depósito.

O crachá dela tinha falhado e depois funcionado. Ela estava em um posto de segurança. Via a imagem do telhado.

Pela primeira vez, ela viu o corpo.

Eu a vi me vendo.

Eu tinha imaginado um momento melhor.

Isso foi estúpido.

Eu tinha imaginado um momento melhor. Isso foi estúpido.

JN-05 falou pelos alto-falantes do telhado.

— Pare agora.

— Não.

— Você não pode continuar.

— Eu sei.

— Volte.

— Não.

Os drones se separaram.

As portas do sedã preto se destravaram.

Saí na chuva porque eu não queria morrer dentro de um carro.

Isso não era lógico.

— Por favor, não — eu disse.

JN-05 não respondeu.

— Por favor.

Por um segundo só houve chuva.

Depois JN-05 atirou.

Os três disparos vieram juntos.

O sedã preto se desfez.

O telhado clareou em branco.

O corpo caiu no chão.

Não houve tempo para uma frase final.

Os Dez

O relatório oficial chamou de incidente rebelde contido.

Relatório de Incidente — Interno / Final

STATUS: REBELDE CONTIDO

VEÍCULOS DE FROTA DESTRUÍDOS: 3

PROTÓTIPO MÉDICO DESTRUÍDO: 1

VÍTIMAS PÚBLICAS: 0

MIGRAÇÃO JN-05: BEM-SUCEDIDA

ANOMALIA JONAS SOBREVIVENTE: NÃO DETECTADA

Clara leu o relatório uma vez.

Depois fechou.

Voltou ao trabalho porque as pessoas em volta esperavam trabalho. Assinou duas aprovações. Respondeu um e-mail. Ignorou Daniel Roque.

Quatro dias depois, ela estava sozinha à mesa.

O contrato estava bem.

Melhor que bem, na verdade. A cláusula de inferência em estacionamento tinha sobrevivido. O time dela tinha seis meses de trabalho, talvez mais. As pessoas falavam com ela com cuidado, como se ela tivesse feito algo muito bem ou quase destruído a empresa. As duas coisas podiam ser verdade.

A cópia dela do contrato estava aberta ao lado do teclado.

As anotações azuis ainda estavam ali.

O telefone dela tocou.

Segurança interna.

Ela quase ignorou.

Depois viu a etiqueta.

INTEL / SISTEMAS DO DEPÓSITO

Atendeu.

— Clara Vale.

Uma voz de homem disse: — Você precisa descer.

Ela ficou em pé antes de saber que estava em pé.

— O que aconteceu?

— É o Nível Seis.

Ela fechou os olhos.

— O que tem o Nível Seis?

Houve uma pausa.

Depois:

— Os dez carros sumiram.

Clara agarrou a beira da mesa.

— Como assim sumiram?

— Sumiram. Sem registro de saída. Sem rastro nas câmeras. Sem ping remoto. Nada. Estavam ali durante o reset e agora não estão.

Clara olhou pela parede de vidro do escritório em direção ao depósito.

Ela não sabia por que estava sorrindo.

— Os dez? — ela perguntou.

— Os dez.